A febre do momento é abrir uma empresa de compras coletivas. Um termo que talvez não faça exatamente jus ao que vem acontecendo na internet. Talvez fosse melhor chamar os negócios de intermediação de descontos arrasadores.

Não é um movimento de quem compra, não é uma associação de consumidores que sai em busca de negociação com fornecedores. Em nenhum dos grandes sites do sistema encontrei um lugar onde pudesse pedir o que eu gostaria de comprar. Pode ser que essa opção exista em outros operadores, mas não deu para visitar todos.

Como no velho marketing todo movimento é de cima para baixo: “Isso é o que temos, é pegar ou largar…” (e você tem só mais 3h23m12s para pegar ou largar). Como no velho marketing, basta um fornecedor fazer sucesso para que surjam milhares de copiadores, segmentadores e, claro, picaretas. Como no velho marketing o negócio está orientado para o produto e não para o mercado.

Afinal de contas, compra coletiva não é exatamente um modelo de negócios moderno, é só a cibernetização (existe isso?) de uma prática que remonta aos anos 50 quando foi fundada em São Paulo a primeira cooperativa de consumidores, a Cooperativa de Consumo Popular da Lapa (pelos funcionários da São Paulo Railway, mais tarde Estrada de Ferro Santos Jundiaí).

A cooperativa da Lapa foi bem sucedida por duas décadas, até ser destruída por má gestão, mas gerou filhotes, o mais famoso deles foi a Cooperhodia (dos funcionários do grupo Rhodia) que, até hoje, tem uma rede de lojas, em algumas cidades do estado. Tanto a Cooperativa da Lapa, como a Cooperhodia eram, originalmente, administradas pelos seus próprios sócios.

Da mesma semente de compras coletivas nasceram os primeiros consórcios que, depois de um tempo, também deixaram de ser uma associação de consumidores para se tornarem empresas intermediadoras. A diferença é que as cooperativas atingiam não mais que alguns milhares de funcionários de empresas, a internet atinge milhões de pessoas.

O que não significa que o negócio que se denomina de compras coletivas seja desprezível, uma pesquisa da Comune na qual revelou que “o mercado de compras coletivas movimentou R$ 136,85 milhões no primeiro bimestre de 2011. De acordo com o levantamento, 2,83 milhões de cupons de descontos foram comercializados em janeiro e fevereiro deste ano. A pesquisa ainda mostrou que os mais de duzentos sites pesquisados tiveram em fevereiro um crescimento de 8,23% em relação a janeiro, totalizando R$ 71,13 milhões”.

O segmento de saúde e beleza foi o maior responsável pelo crescimento, com arrecadação de cerca de R$ 22,66 milhões em janeiro e R$ 22 milhões no mês sucessor. Foram mais de 319,79 mil cupons vendidos apenas no mês de fevereiro – em janeiro o número de cupons vendidos somou 283,94 mil. A previsão de vendas para o ano de 2011 é que fiquem acima de R$1 bilhão. Há expectativa de que sejam vendidos cerca de 40 milhões de cupons até o final deste ano.

Como em todas as grandes ondas da internet os céticos acusam o negócio de fogo de palha, enquanto quem defende seu peixe (urbano ou rural) garante que não é uma febre passageira. A verdade é que será passageiro como são todas as ondas da internet ou do mundo analógico. O consumidor atual não tem mais o hábito de se manter num modelo de negócio pelo resto da vida. Quem acredita na solidificação de qualquer modelo precisa urgentemente ler Zygmunt Bauman.

Quem tiver competência para entrar, ganhar dinheiro e sair no momento certo, vai enriquecer e, quem sabe, na próxima onda, comece a olhar para os consumidores e perguntar a eles o que gostariam de comprar.

Imagem: Ivan Prole

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