Muito se fala sobre empreendedorismo hoje, sobretudo enaltecendo a figura do empreendedor como sendo uma pessoa repleta de qualidades invejáveis como inovador, líder, arrojado, seguro, assertivo, otimista, persistente, entre várias outras que contribuíram para se construir um mito de que o empreendedor é um grande herói. Hoje muitos se comparam a este perfil, querem ser empreendedores, enfatizam suas competências empreendedoras. Cada vez mais anúncios de emprego listam a atitude e o comportamento empreendedor como qualidade desejável. Todos querem ser reconhecidos por esta qualidade, embora poucos na verdade a possuam.

Bem, na semana retrasada, recebi um email de um ex-aluno que reconheço como um verdadeiro empreendedor. É pró-ativo, dinâmico, super ativo, inteligente, com grande capacidade cognitiva, traços de liderança, criativo e influente. Ele me contou que participou de um processo seletivo para uma vaga em uma grande multinacional e suas competências empreendedoras o ajudaram a avançar por todas as etapas do processo, até que chegou na entrevista com aquele que seria seu futuro chefe. Não passou! Segundo o entrevistador, o candidato era empreendedor demais. ‘Empreendedor demais!!!!`, quase ouço meu aluno gritando no email, como alguém pode ser ‘empreendedor demais’ escreve inconformado.

Como tudo na vida em excesso não é bom, ser empreendedor, a despeito de tudo de bom que se fala, em excesso também não é bom. Deixe-me citar algumas explicações por meio das mais conhecidas competências empreendedoras:

  1. Ser inovador demais significa que a pessoa não tem constância, não termina o que começa, vive tendo idéias, uma atrás da outra, o que compromete a capacidade de realização, pois sempre vai surgir uma idéia melhor do que a que ele está realizando;
  2. Ser pró-ativo demais significa que a pessoa pode tomar decisões por conta própria sem a experiência e o conhecimento suficientes para uma boa decisão e assim acabar sendo precipitado e escolher caminhos inadequados;
  3. Assumir riscos demais significa que a pessoa pode estar comprometendo recursos à toa, pode estar colocando muita coisa a perder, e pode estar expondo demais pares, clientes e seu supervisor;
  4. Ser persistente demais significa que a pessoa pode estar usando parâmetros errados que o levem a insistir demais em coisas que não valem mais a pena, podendo facilmente se tornar mera teimosia;
  5. Ter autonomia demais significa que a pessoa pode ter dificuldade para trabalhar em equipe, dividir responsabilidades, confiar em outras pessoas. Tem menos paciência para lidar com pessoas menos capazes do que ele;
  6. Ser auto-confiante demais significa que a pessoa pode ter uma visão distorcida da realidade, apoiar suas decisões demasiadamente em suas próprias intuições e se fechar às influências externas que o contradigam.

Além disso, é importante ressaltar que nem todas as empresas precisam de empreendedores em todos os cargos e funções, é como dizer que todas as posições de um time de futebol precisam ser preenchidas por craques como Kaká. Cada posição requer um perfil diferente e nem todos precisam ter empreendedores.

Por isso, digo ao meu ex-aluno que, o fato de o futuro chefe ter dito isso traz indícios de que ele não se sente à vontade com um funcionário muito empreendedor em sua equipe. Convenhamos, não é fácil ser chefe de um empreendedor. Empreendedores são difíceis de se lidar, são ousados, arrogantes, auto-suficientes, querem ir sempre além do limite, esquecem regras e hierarquia com facilidade, estão sempre sonhando alto, têm dificuldade em realizar tarefas burocráticas, rotineiras e de controle, acabam se metendo em mais coisas do que são capazes de entregar, são enfim, pessoas que podem trazer mais prejuízos do que benefícios e não é qualquer um que gostaria de enfrentar o desafio de ‘segurar’ ou ‘domar’ funcionários com perfil empreendedor.

Ouso ainda afirmar que muitas pessoas se sentem ameaçadas por subordinados empreendedores. Muitos chefes que não são muito seguros de si não suportam alguém sob seu comando que brilhe mais do que eles. Pode parecer surpreendente, mas muitas pessoas com atitude empreendedora perdem o emprego justamente por aquela que deveria ser visto como sua grande qualidade. Já presenciei vários casos de funcionários empreendedores discriminados pelos colegas que relatavam críticas a este perfil para disfarçar a inveja por não deterem estes traços.

Portanto, vamos tratar de desmistificar esta idéia de que verdadeiros empreendedores são necessários e valorizados em qualquer lugar. Não me surpreendo se meu aluno for melhor sucedido em uma outra oportunidade semelhante se ele ‘esconder’ algumas de suas características empreendedoras.

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Marcos Hashimoto
Doutor em Administração de Empresas pela EAESP/FGV. Professor titular do Mestrado Profissional em Administração de Empresas da Faccamp. Também é professor nos MBAs da FIA, da Unianhanguera e da Damásio Devry. Montou e coordenou os Centros de Empreendedorismo do Insper, Faap e FGV, onde também foi professor de Empreendedorismo na graduação e na pós. Também lecionou na ESPM e na BSP. Possui ampla experiência executiva em multinacionais como Cargill Agrícola e Citibank. É autor de 4 livros sobre empreendedorismo e negócios. Consultor de inovação corporativa para corporações e educação empreendedora para universidades. Dentre suas paixões estão as artes marciais (Faixa preta de Karatê Shotokan segundo dan) e cinema.
  • very good!
    Tudo em excesso não é bom!
    Mas ser empreendedor é o melhor caminho para o sucesso,
    uma vez que as atividades a realizar esteja congruente com
    o perfil empreendedor.

    gostei do artigo.

    abraço.

  • Pingback: O melhor da semana em 10 links (07 de agosto) | Alejandro Suárez blog profissional()

  • Boa Noite !

    Em verdade , na busca pela excelência , acho interessante e muito valido ter alguém assim em sua empresa contanto que saiba lidar com ela.
    Ser empreendedor demais quer dizer que a pessoa esta ali e sabe o que quer, muitas vezes esta pessoa nem traços de líder tem, cabe a você descobrir e tirar o positivo da situação.

  • Wender, 16 anos, Nova Friburgo

    Oi!

    Gostei muito do artigo onde me ajudou bastante a esclarecer idéias, e acabou me incentivando mais e mais para ser um GRANDE empreendedor.

    Vlw, abraços ;D

  • Marcio

    Meu TCC na faculdade foi sobre perfil empreendedor e pelo que li acima o concorrente ao cargo demonstrou muito mais características relacionadas ao mito do empreeendedor do que um empreendedor de fato, por exemplo;
    Um empreendedor assume riscos calculados e procura se informar e cercar-se de pessoas que contribuam para o sucesso de seu negócio, ao contrário de uma visão distorcida de que empreendedores são “porralocas” inconsequentes que centralizam toda informação e decisão do seu empreendimento. Estou certo? Usei livros do Hashimoto para elaborar meu trabalho da faculdade!

  • Prezado muito bom seu artigo gostaria de entrar em contato, sou idealizador do maior encontro de empreendedorismo para jovens do Nordeste o CPEJE que esse ano esta em sua 3º edição. Att,