Hoje vou contar uma história para vocês. Uma historinha simples, mas cheia de mudanças e transformações. A sina de um jovem empreendedor cheio de sonhos e idéias malucas. Talvez até você até já tenha ouvido falar nessa história, pois ela é parecida com a sua. Vamos a ela.

Johnny Nobody nasceu em uma família comum de classe média, em um ano qualquer de nossa conturbada época. Estudou em um colégio normal e foi um aluno mediano. Em sua ainda curta vida acadêmica, não se destacou em muitas coisas, a não ser pelo fato de ter uma imaginação fértil e de estar sempre disposto a aprender coisas novas. Nunca se contentou com o que era ensinado na escola e os livros sempre foram um complemento à sua curiosidade crescente.

O primário passou e com ele vieram as mudanças. Johnny cresceu mais um pouco, mudou de cidade, mudou de casa, de colégio e de amigos. Um oceano de novas possibilidades se apoderou de seus olhos e sua cabecinha infantil foi amadurecendo. Foram surgindo as dificuldades inerentes da vida, mas pouco a pouco, Johnny foi adaptando o mundo ao seu modo.

Johnny crescia e sua imaginação junto com ele. Sua família não tinha a melhor das estruturas, mas era feliz assim mesmo. Como todo adolescente sonhador, tinha muitas idéias para o futuro e acreditava piamente em cada uma delas. Já estava gostando daquela nova vida e tinha feito muitos amigos, quando mais uma vez tudo mudou.

A família se separou e Johnny se viu de volta às origens. A nova velha cidade, uma nova residência, outros amigos e novas idéias. As dificuldades cresceram, mas não foram o suficiente para abafar os seus sonhos que sistematicamente foram sendo substituídos por outros sonhos. Agora mais velho, chegou a hora de freqüentar uma universidade. Johnny Nobody tinha que ser alguém na vida.

Mais uma vez Johnny estudou apenas por estudar. Momento errado, curso errado, escola errada. E como sempre, Johnny se refugiou na última página de seus cadernos. Enquanto os professores falavam, anotava idéias e mais idéias em folhas de papel que começavam de trás pra frente. Não era difícil terminar a matéria onde começavam suas anotações. Gostava mais das aulas que não precisava escrever nada, pois eram nessas aulas que mais escrevia. O curso acabou e Johnny jamais foi buscar seu diploma. Cabeça e pés nas nuvens, preferiu voltar para seus amigos e seu antigo sonho de adolescente.

Sem olhar para trás e com a cara e a coragem, se mudou novamente. Dessa vez por vontade própria, pois já era maior de idade. Junto com um amigo, iniciou seu pequeno negócio informal. O negócio prosperou, mas naufragou a amizade. Depois de muitas decepções, voltou para a capital carregando apenas uma insistente depressão. Johnny perdeu tudo menos a dignidade e decidiu buscar um novo sonho em que pudesse acreditar. Estava mais velho, mais maduro e muitos quilos mais magro.

De volta à rotina esmagadora de uma grande cidade, se tornou mais um na multidão. Deu mais algumas cabeçadas e de tanto procurar, acabou encontrando uma coisa que viria a completar o vazio deixado pelo negócio anterior. A Internet. Bateu em tudo quanto é porta até que encontrou um lugar. Começou do zero, aprendendo tudo de novo até ficar bom. Como queria evoluir e aprender mais mudou de empresa algumas vezes, pois queria ficar excelente. Aos poucos o mercado foi formando um profissional competente e requisitado. Não chegou a ganhar prêmios, mas ganhou o respeito de seus colegas.

Como não podia ser diferente, Johnny viu muitos negócios prosperaram nessa época e também quis ter o seu. Imaginava que como tinha feito muitas amizades, não seria difícil reunir um pequeno grupo e iniciar um novo negócio. Ledo engano. Em breve uma bolha estouraria e com ela levaria milhares de sonhos de roldão. A nova empresa, nem chegou a ser criada, pois não era a hora. E mais uma vez, projetos foram para a gaveta. E alguns nem estavam mais na última página dos cadernos da universidade. Tinham virado planos de negócios.

Em breve, o destino mudaria os planos de Johnny mais uma vez. Através daquele mesmo meio com o qual trabalhava, conheceu sua alma gêmea. Mudou de cidade, de família, de situação matrimonial, ganhou uma filha e deixou de ser empregado para ser o dono de seu próprio negócio. Sentia que não era a hora, mas abriu assim mesmo, só para aproveitar uma oportunidade e poder fechar um grande contrato. Estudou e se preparou muito, mas conforme os meses passavam viu que todos aqueles cursos não seriam o suficiente.

Nesses anos todos, Johnny tentou muitas coisas para alavancar seu negócio. Criou novos conceitos, novos produtos, novos serviços, tentou trabalhar com outras pessoas, procurou sócios, teve novas idéias e aplicou quase todas na empresa. Muito inovador e ousado, Johnny não temia mudanças, pois já havia passado por muitas e muitas delas.

O tempo foi passando e Johnny começou a envelhecer. Suas preocupações dobraram e as dívidas foram se avolumando, pois seus negócios não andavam bem. Aos poucos, começou a perder o entusiasmo pelo que vinha fazendo a tantos anos e começou a refletir muito em sua vida. Lembrou-se de como começou, de suas primeiras idéias, de como era legal imaginar as coisas perfeitas e à sua maneira. Lembrou-se de todas as dificuldades pelas quais havia passado e se deu conta de que criar filhos e manter uma família unida era de longe a mais difícil delas. Nunca sequer imaginou de que ter pessoas que o amavam ao seu lado, fosse exigir tantos sacrifícios. Como diria Antoine de Saint-Exupéry, “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”.

O cansaço e o desânimo o fizeram ir para o chão. E ironicamente ou não, do chão avistou uma luz diferente brilhando no horizonte. É incrível como às vezes a solução está do nosso lado. No caso de Johnny, o destino sempre esteve ao seu lado, como na história do Alquimista. Na verdade, o futuro estava dentro dele. Por insistência de sua esposa, Johnny se matriculou em um pequeno curso de literatura. Fez novos amigos, mas muito mais do que isso, conheceu a si mesmo. Johnny finalmente encontrou o que vinha procurando a tanto tempo. Johnny Nobody encontrava agora o seu caminho, um sonho tão forte que superaria todos os outros. Um sonho capaz de mantê-lo acordado a noite toda em busca de sua realização. Um sonho arrebatador e irresistível. Os livros.

Agora era pra valer. Quando não estava dedicando seu tempo à família, Johnny passou a se dedicar ao seu primeiro livro. Em breve voltaria a sonhar e a empreender com seu novo projeto. Logo percebeu que o trabalho para criá-lo seria imenso, mas como era algo que amava muito, seguiu adiante e novamente não olhou para trás. Publicar não era um desafio. O grande desafio era terminar o livro. Só que Johnny tinha uma alma inquieta e não se contentaria com a simples publicação, como faz todo mundo no meio literário. Como qualquer empreendedor, ele quis ir mais longe e fazer o que a maioria dos autores brasileiros em início de carreira acha impossível. Johnny Nobody quis publicar seu livro no maior mercado literário do mundo, os Estados Unidos.

Ouviu muitos “deixa disso” e “é muito difícil” até de seus parentes mais próximos. Na verdade teria todos os motivos para desistir, mas quis ir em frente. Como não tinha dinheiro, começou a reunir pessoas que pudessem ajudá-lo na empreitada. Convenceu a família, reuniu pessoas em torno da “causa” e nesse meio tempo, começou a juntar um bom número de fãs em torno da idéia. Sem querer, Johnny começou a perceber que se fizesse o que realmente amava, com o coração, não importava o que fosse, as portas iriam se abrindo a despeito de todas as dificuldades.

Johnny Nobody ainda não terminou seu livro de ficção, seu Young Adult Fiction Book, como dizem nos Estados Unidos, mas está muito próximo do final. Após terminar ainda haverão inúmeras revisões, depois a tradução e depois as revisões da tradução. Quando estiver tudo pronto, ainda terá que falar com agentes literários americanos até que um deles goste do livro e finalmente o encaminhe a uma editora, que só então o publicará na terra do Tio Sam. E tudo isso ainda pode levar muito tempo. Johnny tem certeza de que ouvirá muitas críticas e muitos “nãos”, mas também ouvirá muitos elogios. Ele conhece os riscos de ter seu livro encalhado, mas também conhece as oportunidades. E sabe que mesmo chegando devagar, o sucesso um dia vai lhe sorrir. Johnny sabe muito bem, que assim como uma empresa, um bom livro não se constrói do dia para a noite. Ele aprendeu que quando se faz o que ama, ganhamos uma força sobrenatural capaz de superar qualquer obstáculo. Até de distância. Johnny já imagina que se tudo der certo, um dia terá que ir para os Estados Unidos divulgar seu livro. Na verdade, isso nem seria um problema, afinal, o que seria mais uma mudança na vida de Johnny Nobody?

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Hoje é o terceiro dia da blogagem coletiva organizada pela Endeavor. O tema proposto foi o “Cenário Empreendedor Brasileiro”, mas como minha visão estava muito pessimista, decidi fazer diferente e escrever um conto sobre um personagem inusitado. Um personagem comum, empreendedor e cheio de sonhos, muito parecido com alguns de vocês. Não exatamente pelo que ele fez, mas pelas coisas que ele sempre buscou. Em outras palavras, a realização de seus sonhos.

Todo empreendedor começa sonhando, mas quero deixar para vocês algumas perguntas:

Você tem certeza de que está sonhando com a coisa certa?
Você tem certeza de que não está sonhando o sonho de outra pessoa?
Isso é realmente o que quero fazer pelo resto de minha vida?
Seu sonho é apenas ganhar dinheiro ou você busca a realização pessoal?
Você tem certeza de que já buscou o suficiente?

Pode não parecer, mas são perguntas assim que definirão o seu futuro. Existem milhares de motivos para que uma empresa não dê certo, mas somente um motivo para que sua empresa aconteça e ele se chama SONHO. Abraçar o sonho certo e fazer o que você ama pode ser o grande diferencial entre ser bem sucedido ou não. Alguns descobrem isso mais cedo, outros, como eu, descobrem mais tarde. O importante é que você não deixe de buscar até ter certeza de que o encontrou. Mas como ter certeza de algo tão intangível? Isso eu não sei explicar, o que sei, é que quando descobrir seu verdadeiro sonho, você saberá!

“O que conduz o mundo é o espírito e não a inteligência.”
Antoine de Saint-Exupéry

Acompanhe a agenda da blogagem coletiva organizada pela Endeavor:

Dia 04/10 – Segunda-feira: Endeavor Brasil e Blog do Empreendedor
Dia 05/10 – Terça-feira: BizRevolution, Startupi e Leo Kuba
Dia 06/10 – Quarta-feira: ResultsOn e Super Empreendedores
Dia 07/10 – Quinta-feira: Miguel Cavalcanti e Atitude BR
Dia 08/10 – Sexta-feira: Saia do lugar e Blog do empreendedor da Caixa

GestãoClick Gestão Empresarial

  • Acho que todo adulto já passou por algumas fases do Sr. Nobody

  • Congrats, Johnny! O que faz um empreendedor, alem da capacidade de sonhar e nao desistir de seus sonhos. Vamos desmistificar o empreendedorismo e olhar pra ele de frente. Eh preciso muita garra, e esse Johnny me fez lembrar uma antiga música de Milton Nascimento “Quem traz no corpo essa marca costuma ter essa estranha mania de ter fe na vida…” desculpe a falta de acentos… Culpo o celular…

  • Pingback: Sílvio Santos vem aí. O próximo pode ser você - AtitudeBR - AtitudeBR()

  • Que história bacana! Realmente, muitas vezes as decisões tomadas por empreendedores vão contra todo o seu histórico de vida. Isso faz dele um cara diferente dos outros. Exatamente por isso eles são tão importantes para o país e o mundo! Que sejamos todos muito mais como Johnny.

    Excelente!

    Abraços

  • Meu querido amigo Johnny, que de Nobody não tem nada…. ;-)
    Muitos procuram a felicidade, mas buscam referências externas, esquecendo que a satisfação e o estado sublime é interior.
    Vê-lo entusiasmado, irrequieto positivamente é algo maravilhoso, pois mostra a sua felicidade que exala pelos póros.
    Viver de forma plena é ser e ser é algo que está relacionado com nossa essência.
    Será???
    Um brinde as Johnny pois eles são e sempre serão Someone.
    Abraços

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  • Acredito que a história que você contou é muito bacana. Não pela história em si, mas por conta das perguntas.

    Tenho lido muito sobre a ciência da felicidade aplicada ao empreendedorismo, em livros como Delivering Happiness ou o Crush It!.

    Tudo é uma questão de paixão e energia. Aquele que te faz levantar de manhã bem cedo para ir à luta.

    Abs!

    @pedrosorren

  • Silvio Sena

    As pressões externas acabam por nos guiar por vias que invariavelmente nos levam a uma zona de perigo que é a depressão, nestas horas questionamos se estamos sendo teimosos e fracassados ou se o universo esta conspirando contra nossa natureza empreendedora, a historia de Johny nos remete a reflexão e nos da um ensinamento, precisamos apenas de um minuto para mudarmos este estado de coisas, o importante é se manter otimista e acreditar que somos capazes de se superar.

  • Muitos tem o sonho de tornar-se um empresario de sucesso, ver sua empresa prosperar, mais porque poucas empresas dão certo, seria um dom de ser administrador? seria um dom de colocar suas ideias em pratica? acho que nunca vamos saber realmente isso.

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