Fazer ouvidos de mercador é uma expressão que caiu em desuso na nossa língua, tornou-se algo antiquado, quase um anacronismo. No entanto a prática permanece.

Caso meus leitores mais jovens não saibam fazer ouvido de mercador é se fazer de surdo, não dar importância ao que se fala. Ouvir só o que lhe interessa.

No caso dos mercadores da antiguidade, essa estratégia era uma forma de evitar barganhas excessivas por parte do comprador e, também, uma forma de não se irritar com críticas dos compradores aos produtos vendidos (o desdém é uma forma negociação também até hoje).

O problema é que os mercadores atuais continuam fingindo que não ouvem o que seus clientes querem falar. Afinal de contas, quem são esses caras que acham que sabem o que querem?

Experimente entrar numa loja dizendo que, apesar de ser a moda do momento, você odeia gola olímpica. O vendedor vai rodear, rodear e, quando você menos espera, vai te oferecer a gola olímpica.

Diga para o seu gerente de banco que não quer nem ouvir falar em título de capitalização e, mesmo assim, todo mês um aspone da gerência vai te ligar com uma proposta incrível de…títulos de capitalização (afinal, o que interessa é ele cumprir a meta, não atender o cliente).

É verdade que os poucos que se dão ao trabalho de ouvir o que o cliente quer, fazem negócios melhores e sempre estão acima das suas metas.

O que acaba acontecendo é que, na falta de diálogo com seus fornecedores, os clientes conversam cada vez mais entre si, hoje não faltam meios para isso, e decidem o que, quando e onde comprar.

Principalmente, onde não comprar.

Não que as empresas estejam dispostas a ouvir essa conversação que é pública, pelo contrário, toda vez que eu ouço algum marketeiro dizer que quer usar redes sociais no seu negócio é só para poder falar, nunca para ouvir.

O tempo dos mercadores, quando a procura era maior que a oferta, já se foi. Não escutar os mercados é tão mais fatal para uma empresa quanto mais competitivo ele for.

Sobreviverão as que descobrirem que além de esquecer o significado dessa expressão, também precisam aposentar definitivamente essa prática.

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Fábio Adiron
Graduado em Comunicação Social e especializado em Marketing pela FAAP e pós-graduado em Economia de Empresas pela FGV, foi responsável pela implantação de Database Marketing no Consórcio Nacional Sharp, NET Brasil e no Grupo Vale Refeição, tendo também trabalhado com planejamento e atendimento de marketing direto na Lowe Loducca e DenisonBrasil. Consultor em Marketing Direto e Database Marketing, foi fundador e diretor do IDBM e membro do conselho editorial e da comissão de Database & Listas da ABEMD.
  • Fábio, parabens pelo artigo!

    Infelizmente pouquíssimas empresas dão ouvidos aos seus clientes, basta uma rápida procura no Twitter para ver as empresas que monitoram seus produtos/serviços nas redes sociais.

    Acredito que por isso há muitos clientes frustados e sempre mudando de produto/serviço.

  • Concordo com você uma vez que são os clientes que escolhem o que comprar e não os empresários o que vender.
    Se as empresas não ouvir os clientes automaticamente vai perder a maioria, porque com a entrada e facilidade de informação, os clientes tem facilidade em adquirir conhecimentos e consequentemente vai escolher o produto melhor e /ou o que maior atende seus desejos e necessidades.

    abraço.